terça-feira, 7 de julho de 2015

dos Arquitectos e Adjacentes





O estranho caso dos pneus desaparecidos


“.. porque o viajante sobe despreocupado a colina de Ribeirão, e vai adoravelmente enfeitiçado; mas depois sahe-lhe a Terra Negra pela frente! (…) O Senhor dos Perdões, segundo a lenda, foi mandado levantar por um viajante que escapou aos salteadores, levando muito dinheiro comsigo. Ao pé umas cruzes marcam logares de assassinato e roubo, e se a lenda não diz que o viajante da ermida dos Perdões foi assaltado pela cáfila, de que se viu livre, mercê do auxílio do Senhor invocado, é que o milagre veio a propósito para o libertar dos invisíveis amigos da sua bolsa recheada. Ora ahi tem, pois, como o terror da Terra Negra justifica o feitiço do valle de Ribeirão; de resto deve dizer-se que o scenario está perfeitamente adequado aos dramas lendários do assassinato e do roubo. O tablado do palco, de terra carbonífera, é realmente negro, no rigoroso sentido da palavra, e a massa escura do pinhal basto, encobrindo os luminosos sorrisos do horisonte, prepara uma mise-en-scene digna de salteadores à mão armada. Mas, adiante logo, o scenario muda, e os pensamentos sinistros batem em debandada, quando as quintas, as correntes de água, os campos cultivados de S. Juliao do Calendário, a que pertence já a estação da linha férrea, abrem para nós todas as graças da bucólica ridente.

E estamos em Famalicão![1]




[1] José Augusto VIEIRA (1886), O Minho Pittoresco, Livraria António Maria Pereira Editor, Lisboa, 1886, tomo II, p. 106.

Nos idos de 1886 já esta terra era de péssima fama, como se pode ler; os assaltos à mão armada, os roubos, extorsões, assassinatos…, eram frequentes, praticados por grupos de perigosíssimos salteadores chefiados por indivíduos profissionais, frios, sem escrúpulos.

Hoje esta saga continua. Depois de muitas queixas sobre constantes roubos de pneus, descobriu-se um enorme depósito destes objectos num vale escondido de Barcelos (não podemos revelar o nome porque todo o processo se encontra em segredo de justiça).

A denúncia deste caso veio de uns vizinhos que diziam que, apesar de ser habitual o uso de pneus para tapar os depósitos de milho ensilado nas vacarias, aqui não havia sinal de vaca.

O grupo, comandado por uma mulher que terá cerca de 40 anos, fazia viagens frequentes num Saxo azul. Estas movimentações a altas horas da madrugada provocavam certa curiosidade junto dos vizinhos que ouviram muitas vezes a “chefa”, como lhe chamavam, ser tratada por “Léna” e “senhora doutora”. Havia um outro sócio a que uns chamavam “senhor Ricardo” e outros “Espírito Santo” e que discutia frequentemente com a alegada “Léna” dizendo-lhe que era dono daquilo tudo.

Tudo isto se tornou mais visível num dia em que a alegada criminosa foi vista acompanhada por um homem que trepava aos postes da luz e tirava fotografias, e por um outro a quem chamavam “arquitecto” que media e desenhava incessantemente. Quando a enorme estrutura em betão começou a crescer, é que se percebeu que a intenção era esconder tudo dentro de um grande armazém: os pneus, os campos, o vale e os eucaliptos. Foi a quando a Câmara Municipal de Barcelos interveio, embargando a obra por estar em Reserva Agrícola Nacional. A alegada “Léna” ameaçou os técnicos da Câmara, dizendo que só os pilares tocavam o chão e que não havia qualquer dano para a tal reserva que, continuou argumentando, ficaria assim muito mais protegida dos aguaceiros e dos técnicos do ministério da agricultura. A foto foi obtida no momento em que a presumida chefe dos salteadores se passeava pelas montanhas de pneus.

Por estas horas decorre o interrogatório nas instalações da Polícia Judiciária. O nosso informador disse-nos que a suspeita principal deste crime alega que está a fazer um trabalho para uma conhecida fábrica de pneus da zona, a Continental-Mabor e que é essa a razão pela qual os acumula naquela instalações, acrescentando que o objectivo é fazer-lhes entrevistas e inquéritos sobre viagens e movimento nas estradas que, como se sabe, é coisa em que os pneus andam sempre envolvidos - os pneus falam com muita dificuldade e não atinam a preencher os inquéritos.

Contactado o administrador da referida empresa, foi-nos dito que de facto há conhecimento dessa investigação mas que a alegada “Léna” já não põe lá os pés há que tempos, que eu saiba, acrescentou. Mais comentou dizendo que decorre uma investigação na empresa por causa de milhares de pneus que têm vindo a desaparecer misteriosamente dos armazéns.

A Polícia Judiciária tem fortes suspeitas de que as duas coisas estejam relacionadas. E, de facto, é isso que se conclui da recente investigação feita pela revista Visão. Pelo que a revista já publicou, tudo aponta para uma complexa rede de cúmplices.

Um antigo administrador da Continental-Mabor, que terá sido cúmplice da entrada de “Léna” na empresa, está agora desaparecido, havendo indícios de que faz agora lavagem do dinheiro obtido com os pneus no Brasil, onde investe no negócio do petróleo de modo anónimo, através da sua filha, que funciona como testa de ferro. No Brasil pode-se fazer quase tudo na Reserva Agrícola Nacional, nomeadamente furar o chão à procura de petróleo.

Entretanto, desde a descoberta do caso pelas autoridades, os pneus começaram lentamente a desaparecer do vale de Barcelos. Desconfia-se de um estranho casal que por vezes viaja entre Lisboa e o Norte. A mulher faz-se passar por grávida de modo a transportar um pneu de cada vez debaixo da roupa, sem levantar suspeitas. Afirma ainda a Visão que, o homem terá alta formação na área do empreendorismo e gestão, questionando a revista se não será ele o verdadeiro cérebro por trás de toda a operação. Os pneus, serão então levados para Lisboa, para casa de um outro homem, discreto e bem relacionado, que os deverá passar, discretamente, para uma casa em Vaiamonte.

A Visão traçou todo este percurso a partir de testemunhos de alguns habitantes de Vaiamonte que dizem ter visto “Léna” com alguma frequência nessa casa que dizem ser dela. No entanto, a investigação não encontrou nenhuma prova da sua compra, pelo que toda a história está envolta em grande mistério.

Contactada pela Visão, e talvez intimidada pelo seu conselho científico, a mulher alegadamente grávida jura a pés juntos – tanto quanto permitido pela gravidez – que os pneus têm nome e se chamam Maria Francisca, mais concretamente Maria Francisca 195/55/R16. “As mulheres, nesta altura do ano, alguns meses antes do Verão, costumam andar com pneus” – desculpou-se ela – “por isso não estou a ver o que possa estar a fazer de errado. Não me deixem nervosa, que se me rebenta a câmara-de-ar” retorquiu.

Por outro lado, confrontada com esta alegação, a Continental-Mabor apressou-se a desmentir e apresentar queixa na instituição competente, onde por norma decorre o debate informado e moderado sobre a actualidade (o Facebook) dizendo que nunca deu tal nome a um pneu. “Já produzimos o pneu Maria, que permitia ir de qualquer ponto do país até Fátima com uma aderência em piso molhado de classe A, um autêntico milagre, agora Maria Francisca não, é pura mentira. Isto só pode ser uma manobra da concorrência para denegrir a nossa reputação”. De facto, Michelin – Goodyear. Manuel – Godinho. E nas sucatas costuma haver pneus. Não pode ser mero acaso.

A trama é de tal forma complexa que, segundo a revista, não poderia ter sido implementada sem o conhecimento e apoio das mais altas esferas do governo. Por isso, a revista coloca a possibilidade das referências a “Léna” que surgiram repetidamente nas escutas a Sócrates corresponderem a esta “Léna” e não ao Grupo Lena, ligado à construção, como erroneamente julgou o Ministério Público. Aliás, sabemos que, após estas revelações, o Ministério Público considera rever toda a linha de acusação ao antigo Primeiro-Ministro, o qual ainda não se pronunciou sobre o caso.

Escutas recentemente obtidas, revelam entretanto o teor de conversas potencialmente incriminatórias.


“Léna - Então afilhado? Já chegaste? Foste bem na auto-estrada?

Homem não identificado - Ohhh madrinha! Viva! Tudo em cima, tudo em cima!

Léna - Certo. Não te quero a fazer piscinas sem dormir. Olha, reserva aí uma caixa de Brisas. Umas dezanove, devem chegar. Ainda me dá para comer uma – e ficam 18. Deve chegar.

Homem não identificado - Oh madrinha, são 19?”

Léna – Pois são. Bolinho, bolinho!”

(A história poderia acabar por aqui mas o mal de encetar uma investigação a muitas mãos dá nisto. A verdade é que dentro do apartamento da Léna, incluíndo o seu pátio secreto, há todo um mundo que não se resolve neste textículo. Rematemos com um episódio inventado que não chega aos calcanhares de nenhum que por lá tenha passado)

Como sempre e em novela que se preze, há neste mistério um enorme drama amoroso: a Continental, na senda do domínio do império do pneumático preparava em segredo criar uma mascote feminina para seduzir e corromper Bibendum (o bonequinho da Michelin). A incursão por terras lusas serviria para isso mesmo- acreditavam que em Portugal encontrariam o arquétipo da mulher trabalhadeira, devota e casta, fiel ao plano que tinham gizado. Maria Antónia, filha do Conde da Covilhã e de MAria BORges (que deu o nome à MABOR), a pessoa certa para levar a tarefa a cabo. Assim se criou a Continental-MABOR que salvou a família da ruína financeira mas não da ruína moral que se seguiu.

Perante o dilema de fidelidade à mão germânica que lhe dava de comer e a paixão inesperada pela sua vítima gaulesa, Maria Antónia, parte para o Brasil. Depois de um período em que liderou os negócios petrolíferos e de contrafacção de pneus do pai, lá se reinventou (seguindo os passos de Carmen Miranda) em mulher fatal e promíscua para poder sobreviver.

Hoje, no primeiro andar daquele prédio (numa rua de santas pousadas) encontrou porto seguro e de lá planeia uma investida Viriática sobre os seus continentais opressores. A revolução, como deve ser, também é feita de festa. "Léna" fornece os víveres enquanto alguém canta a ode Catita. Entra uma névoa de fumo negro e cheiro a borracha queimada:




Chama-se Maria Antónia 

E é fabricada em cauchú 

E vem da floresta amazónica 

Onde anda tudo nu 



Bonequinha de borracha 

Vives dentro de uma caixa 

Dá amor e ilusão 

Ao meu pobre coração 

Nunca desprezas nem ris 

Dos meus atributos viris 

Sorris com delicadeza 

Quando te visto de princesa 



Não és biodegradável 

Mas és bastante agradável 

Com os olhos sempre abertos 

Muito grandes, muito espertos 

És bem melhor do que aquelas 

Que eram corsárias do amor 

Que prendem homens em trelas 

Conheço muitas, sim senhor 



(Foi num centro comercial, que de repente surgiu no meio do nada, uma fada) 



Custou-me nove mil escudos 

Todas as minhas poupanças 

Mas tem cantinhos felpudos 

E as mais bonitas tranças 

Tu cumpres os teus deveres 

Como muita educação 

Em paga desses prazeres 

Eu dedico-te esta canção 

Bonequinha




(Adensa-se o fumo, o ecrã fica negro e chegamos ao fim possível) 



FIN


Ideia geral e argumento:
Alvarinho (D.O.C.)

Desenvolvimento e bitaites diversos:
Atilho Fumarola
Anita
Bruno (pronunciado com sotaque italiano)
Chico Maclófelin
Lady kate
Nuninho
Zézinhos
Teresa (afasta de mim esse) Calix
Flying Dutchman
Daniel Sacripanto
André Pinto
Ivinho

Agradecimetos:
Continental-Mabor
Michelin
Goodyear
Câmara Municipal de Barcelos
Junta de Freguesia de Vaiamonte
Casa das Brisas
Petrobras/ GALP
Polícia Judiciária
Banco Mau
Irmãos Catita
Estabelecimento Prisional de Évora
Citroën
Visão
Facebook
Grupo LENA
Universidade do Porto
FAUP
MDT
FCT
QREN
COMPETE 2020
 (E esse todos que tanto gostam de ser citados e que fazem tão pouco por nós)
Ide vos
FEDER