terça-feira, 7 de julho de 2015

dos Arquitectos e Adjacentes





O estranho caso dos pneus desaparecidos


“.. porque o viajante sobe despreocupado a colina de Ribeirão, e vai adoravelmente enfeitiçado; mas depois sahe-lhe a Terra Negra pela frente! (…) O Senhor dos Perdões, segundo a lenda, foi mandado levantar por um viajante que escapou aos salteadores, levando muito dinheiro comsigo. Ao pé umas cruzes marcam logares de assassinato e roubo, e se a lenda não diz que o viajante da ermida dos Perdões foi assaltado pela cáfila, de que se viu livre, mercê do auxílio do Senhor invocado, é que o milagre veio a propósito para o libertar dos invisíveis amigos da sua bolsa recheada. Ora ahi tem, pois, como o terror da Terra Negra justifica o feitiço do valle de Ribeirão; de resto deve dizer-se que o scenario está perfeitamente adequado aos dramas lendários do assassinato e do roubo. O tablado do palco, de terra carbonífera, é realmente negro, no rigoroso sentido da palavra, e a massa escura do pinhal basto, encobrindo os luminosos sorrisos do horisonte, prepara uma mise-en-scene digna de salteadores à mão armada. Mas, adiante logo, o scenario muda, e os pensamentos sinistros batem em debandada, quando as quintas, as correntes de água, os campos cultivados de S. Juliao do Calendário, a que pertence já a estação da linha férrea, abrem para nós todas as graças da bucólica ridente.

E estamos em Famalicão![1]




[1] José Augusto VIEIRA (1886), O Minho Pittoresco, Livraria António Maria Pereira Editor, Lisboa, 1886, tomo II, p. 106.

Nos idos de 1886 já esta terra era de péssima fama, como se pode ler; os assaltos à mão armada, os roubos, extorsões, assassinatos…, eram frequentes, praticados por grupos de perigosíssimos salteadores chefiados por indivíduos profissionais, frios, sem escrúpulos.

Hoje esta saga continua. Depois de muitas queixas sobre constantes roubos de pneus, descobriu-se um enorme depósito destes objectos num vale escondido de Barcelos (não podemos revelar o nome porque todo o processo se encontra em segredo de justiça).

A denúncia deste caso veio de uns vizinhos que diziam que, apesar de ser habitual o uso de pneus para tapar os depósitos de milho ensilado nas vacarias, aqui não havia sinal de vaca.

O grupo, comandado por uma mulher que terá cerca de 40 anos, fazia viagens frequentes num Saxo azul. Estas movimentações a altas horas da madrugada provocavam certa curiosidade junto dos vizinhos que ouviram muitas vezes a “chefa”, como lhe chamavam, ser tratada por “Léna” e “senhora doutora”. Havia um outro sócio a que uns chamavam “senhor Ricardo” e outros “Espírito Santo” e que discutia frequentemente com a alegada “Léna” dizendo-lhe que era dono daquilo tudo.

Tudo isto se tornou mais visível num dia em que a alegada criminosa foi vista acompanhada por um homem que trepava aos postes da luz e tirava fotografias, e por um outro a quem chamavam “arquitecto” que media e desenhava incessantemente. Quando a enorme estrutura em betão começou a crescer, é que se percebeu que a intenção era esconder tudo dentro de um grande armazém: os pneus, os campos, o vale e os eucaliptos. Foi a quando a Câmara Municipal de Barcelos interveio, embargando a obra por estar em Reserva Agrícola Nacional. A alegada “Léna” ameaçou os técnicos da Câmara, dizendo que só os pilares tocavam o chão e que não havia qualquer dano para a tal reserva que, continuou argumentando, ficaria assim muito mais protegida dos aguaceiros e dos técnicos do ministério da agricultura. A foto foi obtida no momento em que a presumida chefe dos salteadores se passeava pelas montanhas de pneus.

Por estas horas decorre o interrogatório nas instalações da Polícia Judiciária. O nosso informador disse-nos que a suspeita principal deste crime alega que está a fazer um trabalho para uma conhecida fábrica de pneus da zona, a Continental-Mabor e que é essa a razão pela qual os acumula naquela instalações, acrescentando que o objectivo é fazer-lhes entrevistas e inquéritos sobre viagens e movimento nas estradas que, como se sabe, é coisa em que os pneus andam sempre envolvidos - os pneus falam com muita dificuldade e não atinam a preencher os inquéritos.

Contactado o administrador da referida empresa, foi-nos dito que de facto há conhecimento dessa investigação mas que a alegada “Léna” já não põe lá os pés há que tempos, que eu saiba, acrescentou. Mais comentou dizendo que decorre uma investigação na empresa por causa de milhares de pneus que têm vindo a desaparecer misteriosamente dos armazéns.

A Polícia Judiciária tem fortes suspeitas de que as duas coisas estejam relacionadas. E, de facto, é isso que se conclui da recente investigação feita pela revista Visão. Pelo que a revista já publicou, tudo aponta para uma complexa rede de cúmplices.

Um antigo administrador da Continental-Mabor, que terá sido cúmplice da entrada de “Léna” na empresa, está agora desaparecido, havendo indícios de que faz agora lavagem do dinheiro obtido com os pneus no Brasil, onde investe no negócio do petróleo de modo anónimo, através da sua filha, que funciona como testa de ferro. No Brasil pode-se fazer quase tudo na Reserva Agrícola Nacional, nomeadamente furar o chão à procura de petróleo.

Entretanto, desde a descoberta do caso pelas autoridades, os pneus começaram lentamente a desaparecer do vale de Barcelos. Desconfia-se de um estranho casal que por vezes viaja entre Lisboa e o Norte. A mulher faz-se passar por grávida de modo a transportar um pneu de cada vez debaixo da roupa, sem levantar suspeitas. Afirma ainda a Visão que, o homem terá alta formação na área do empreendorismo e gestão, questionando a revista se não será ele o verdadeiro cérebro por trás de toda a operação. Os pneus, serão então levados para Lisboa, para casa de um outro homem, discreto e bem relacionado, que os deverá passar, discretamente, para uma casa em Vaiamonte.

A Visão traçou todo este percurso a partir de testemunhos de alguns habitantes de Vaiamonte que dizem ter visto “Léna” com alguma frequência nessa casa que dizem ser dela. No entanto, a investigação não encontrou nenhuma prova da sua compra, pelo que toda a história está envolta em grande mistério.

Contactada pela Visão, e talvez intimidada pelo seu conselho científico, a mulher alegadamente grávida jura a pés juntos – tanto quanto permitido pela gravidez – que os pneus têm nome e se chamam Maria Francisca, mais concretamente Maria Francisca 195/55/R16. “As mulheres, nesta altura do ano, alguns meses antes do Verão, costumam andar com pneus” – desculpou-se ela – “por isso não estou a ver o que possa estar a fazer de errado. Não me deixem nervosa, que se me rebenta a câmara-de-ar” retorquiu.

Por outro lado, confrontada com esta alegação, a Continental-Mabor apressou-se a desmentir e apresentar queixa na instituição competente, onde por norma decorre o debate informado e moderado sobre a actualidade (o Facebook) dizendo que nunca deu tal nome a um pneu. “Já produzimos o pneu Maria, que permitia ir de qualquer ponto do país até Fátima com uma aderência em piso molhado de classe A, um autêntico milagre, agora Maria Francisca não, é pura mentira. Isto só pode ser uma manobra da concorrência para denegrir a nossa reputação”. De facto, Michelin – Goodyear. Manuel – Godinho. E nas sucatas costuma haver pneus. Não pode ser mero acaso.

A trama é de tal forma complexa que, segundo a revista, não poderia ter sido implementada sem o conhecimento e apoio das mais altas esferas do governo. Por isso, a revista coloca a possibilidade das referências a “Léna” que surgiram repetidamente nas escutas a Sócrates corresponderem a esta “Léna” e não ao Grupo Lena, ligado à construção, como erroneamente julgou o Ministério Público. Aliás, sabemos que, após estas revelações, o Ministério Público considera rever toda a linha de acusação ao antigo Primeiro-Ministro, o qual ainda não se pronunciou sobre o caso.

Escutas recentemente obtidas, revelam entretanto o teor de conversas potencialmente incriminatórias.


“Léna - Então afilhado? Já chegaste? Foste bem na auto-estrada?

Homem não identificado - Ohhh madrinha! Viva! Tudo em cima, tudo em cima!

Léna - Certo. Não te quero a fazer piscinas sem dormir. Olha, reserva aí uma caixa de Brisas. Umas dezanove, devem chegar. Ainda me dá para comer uma – e ficam 18. Deve chegar.

Homem não identificado - Oh madrinha, são 19?”

Léna – Pois são. Bolinho, bolinho!”

(A história poderia acabar por aqui mas o mal de encetar uma investigação a muitas mãos dá nisto. A verdade é que dentro do apartamento da Léna, incluíndo o seu pátio secreto, há todo um mundo que não se resolve neste textículo. Rematemos com um episódio inventado que não chega aos calcanhares de nenhum que por lá tenha passado)

Como sempre e em novela que se preze, há neste mistério um enorme drama amoroso: a Continental, na senda do domínio do império do pneumático preparava em segredo criar uma mascote feminina para seduzir e corromper Bibendum (o bonequinho da Michelin). A incursão por terras lusas serviria para isso mesmo- acreditavam que em Portugal encontrariam o arquétipo da mulher trabalhadeira, devota e casta, fiel ao plano que tinham gizado. Maria Antónia, filha do Conde da Covilhã e de MAria BORges (que deu o nome à MABOR), a pessoa certa para levar a tarefa a cabo. Assim se criou a Continental-MABOR que salvou a família da ruína financeira mas não da ruína moral que se seguiu.

Perante o dilema de fidelidade à mão germânica que lhe dava de comer e a paixão inesperada pela sua vítima gaulesa, Maria Antónia, parte para o Brasil. Depois de um período em que liderou os negócios petrolíferos e de contrafacção de pneus do pai, lá se reinventou (seguindo os passos de Carmen Miranda) em mulher fatal e promíscua para poder sobreviver.

Hoje, no primeiro andar daquele prédio (numa rua de santas pousadas) encontrou porto seguro e de lá planeia uma investida Viriática sobre os seus continentais opressores. A revolução, como deve ser, também é feita de festa. "Léna" fornece os víveres enquanto alguém canta a ode Catita. Entra uma névoa de fumo negro e cheiro a borracha queimada:




Chama-se Maria Antónia 

E é fabricada em cauchú 

E vem da floresta amazónica 

Onde anda tudo nu 



Bonequinha de borracha 

Vives dentro de uma caixa 

Dá amor e ilusão 

Ao meu pobre coração 

Nunca desprezas nem ris 

Dos meus atributos viris 

Sorris com delicadeza 

Quando te visto de princesa 



Não és biodegradável 

Mas és bastante agradável 

Com os olhos sempre abertos 

Muito grandes, muito espertos 

És bem melhor do que aquelas 

Que eram corsárias do amor 

Que prendem homens em trelas 

Conheço muitas, sim senhor 



(Foi num centro comercial, que de repente surgiu no meio do nada, uma fada) 



Custou-me nove mil escudos 

Todas as minhas poupanças 

Mas tem cantinhos felpudos 

E as mais bonitas tranças 

Tu cumpres os teus deveres 

Como muita educação 

Em paga desses prazeres 

Eu dedico-te esta canção 

Bonequinha




(Adensa-se o fumo, o ecrã fica negro e chegamos ao fim possível) 



FIN


Ideia geral e argumento:
Alvarinho (D.O.C.)

Desenvolvimento e bitaites diversos:
Atilho Fumarola
Anita
Bruno (pronunciado com sotaque italiano)
Chico Maclófelin
Lady kate
Nuninho
Zézinhos
Teresa (afasta de mim esse) Calix
Flying Dutchman
Daniel Sacripanto
André Pinto
Ivinho

Agradecimetos:
Continental-Mabor
Michelin
Goodyear
Câmara Municipal de Barcelos
Junta de Freguesia de Vaiamonte
Casa das Brisas
Petrobras/ GALP
Polícia Judiciária
Banco Mau
Irmãos Catita
Estabelecimento Prisional de Évora
Citroën
Visão
Facebook
Grupo LENA
Universidade do Porto
FAUP
MDT
FCT
QREN
COMPETE 2020
 (E esse todos que tanto gostam de ser citados e que fazem tão pouco por nós)
Ide vos
FEDER



sábado, 4 de julho de 2015

Madrinha

Estimada madrinha (aka Helena!),
Quero deixar uma mensagem simples e pequena: para as pessoas serem especiais nas nossas vidas bastam serem inspiradoras e honestamente amigas, no sentido lato da palavra. A amizade prova-se nas circunstâncias e adversidades; a inspiração, essa já não é para qualquer um! Admiro a tua força, sapiência, vontade de viver, e sobretudo...o sorriso e a franqueza (às vezes dura) das palavras.
No meio de tanta "moleza" só é pena seres "camarada"! Ahahahahahah, tinha que meter uma provocação! Afinal pode dar direito a uma bela tarde de conversa (a levar porrada) com umas quantas Brisas e um bom espumante bruto. Tudo antes dos 41.

Um abraço forte e cheio de sorrisos!
Zé Martins

Helena escreve a Ana, não quero perder a oportunidade de te desejar tudo de bom! Um grande beijinho e até breve!
Ana C

Let's rock!

Mulher, 

Ao longo destes anos praticámos quase todas as traficâncias que alimentam uma amizade. Iniciámo-nos nas traquinices e malícias da adolescência, confidenciámos os anseios e frustrações da transição para a idade adulta, viajámos para norte e para sul, entusiasmámo-nos com os mesmos livros e deixámo-mos contagiar pela música, em regra suaves murmúrios, quase sempre baladas tristes. 


Na hora de assinalar a tua simbólica transição para a meia idade, acho que está na hora de virar o disco. Deixo-te uma play-list para te acompanhar nos próximos 40 anos, cheia de ritmo e só levemente polvilhada de melancolia. Let's rock! 

da Paula Rainha





Querida Helena,
Estou um pouco como a Joana, já não sei se penso e falo (bem) em Português mas neste teu aniversário tento e tento e tento. Bendito seja, porque tinha saudades. Escrevo sentada no jardim, com um calor bem Português a untar-me a pele e com a Maria Betânia a cantar « Formosa não faz assim » para toda a rua ouvir.
Ao ler o nome deste blogue, "Léna e os quarenta", recordei-me imediatamente deste livro, um dos meus preferidos de uma colecção à qual volto ocasionalmente, quando preciso de evadir o turbilhão do presente e voltar a sentir o tempo sem tempo da minha infância.
Esta colecção foi publicada entre 1977 e 1979 e comprava-se por correspondência. Pertencia aos meus primos mas eu gostava tanto ou mais dela que a minha tia acabou por ma oferecer. Ao escrever isto recordo-me também do Portugal no qual eu lia estes livros. Um país que já não existe, onde não se vêem tantas nespereiras e figueiras nos quintais, nem rebanhos nos terrenos vagos da cidade. Um Portugal onde se atiravam cestinhos da janela com as chaves de casa ou o dinheiro para o pão, onde ser apanhavam caracóis à beira da estrada e pinhas cheias nos pinhais. Onde se descascavam sacas e sacas de ervilhas, sem sequer acender a televisão porque, em qualquer caso, só dava a Tele-escola. Não tinhamos só pouco dinheiro como hoje, tinhamos poucas coisas e poucas lojas. E possivelmente não precisavamos da maioria.
Durante uma década não abri este livro porque o tinha encaixotado em Lisboa, a espera até que eu chegasse ao destino final e assentasse arraiais. Desde que aqui cheguei, tenho frequentemente e propositadamente parado e esbanjado tempo, também para reler livros como este e assim reviver os dias sem fim passados sobretudo com a minha avó, as primeiras leituras, o « Abre-te Sésamo » e o deslumbre com as ilustrações, olhadas detalhe por detalhe durante horas sem fim.
Por ter as minhas filhas estou talvez mais sensibilizada para a importância da infância em toda a nossa vida, mas acho que este retorno à infância se deve muito também ao facto de que começei a não ter tempo de fazer memórias – quando somos crianças lemos e voltamos a ler, olhamos e voltamos a olhar, pensamos e voltamos a pensar e eu estava a deixar de o fazer. Lia um livro e não o voltava a ler porque tinha uma pilha para ler, tirava fotos e não as via novamente porque tinha mais para tirar, o pensamento tinha sempre um objectivo. Tinha-me tornado uma pessoas (a)tarefada, e vivia consumida pelas tarefas. O meu marido e as minhas filhas forçaram-me a ir além do “eu não posso parar” e efectivamente parar. É materialmente assustador e é física e psicologicamente doloroso começar ou voltar a viver a uma outra velocidade, ficar para trás. Isto até se perceber que estavamos na corrida por acidente e que para alguns de nós, é essencial viver devagar,  à velocidade mais lenta de quem somos, e com isso ser o mais possível livre em toda a profundidade e humanidade dessa grande palavra que é liberdade.
Quando penso em ti penso numa pessoa (a)tarefada, que não vive à velocidade de quem é. Não o podes fazer, dirás tu. Talvez. Se te pudesse dar algo hoje seria isso, o tempo para ser quem és, livre. Não podendo, deixo-te o convite de pegares nos teus livros da infância e não a pilha que tens para ler e partires para longe, para um sitio onde só haja água, pão, fruta, mar, vento, sol e estrelas e música, sempre música.
É importante ter tempo para pensa rem coisas que aparentemente não interessam para nada. Vê bem esta história, por exemplo.
Há uns sete anos, conheci uma uma moçambicana. Nesse encontro ela contou-me que tinha sido uma « retornada » em Portugal e que no inicio dos anos 80 pôde voltar a Maputo de visita. Estava tão feliz de voltar a casa que foi directamente do aeroporto para a sua antiga rua. Quando chegou percebeu que já não vivia lá quase ninguém que ela conhecesse. Porém, aquele conjunto específico de [vizinhos/janelas com cortinas de um certo estilo/roupa estendida/bolas esquecidas no quintal/cão que ladra/carros estacionados/senhora da padaria] que ela tinha na memória já não existia. Não ficou sequer triste, foi-se embora, nunca mais pensou nisso e nunca mais voltou.
Tenho pensado muito nesta história ao longo dos anos mas ainda não consegui entendê-la em toda a sua profundidade. Acho, às vezes, que ela percebeu que era como se as pessoas estivessem vivas e continuassem a viver todas juntas, nos mesmos prédios e rua mas noutra dimensão. Cheguei mais perto de entender a história quando a minha avó faleceu. O esvaziar e vender da casa não significaram muito porque eram presente e este era completamente desfazado de mim, como se fosse uma experiência de alguém de outro. A minha avó não tinha, na verdade morrido para mim, continuava comigo a-problematicamente noutra dimensão, a dimensão viva do meu ser. É que as memórias da infância são um tempo e espaço vivos nos quais vivemos todos os dias da nossa vida.
Mas acho que há ângulos do episódio que ainda não explorei. E ainda não o cruzei com aquela outra história do neto da D. Micas que voltou aos 60 anos à rua para ver a casa da avó e que falou comigo, uma estranha sentada na esplanada ao lado, que o olhava sem perceber o que fazia naquele beco. Mas bom, talvez pense um pouco mais em tudo isto este Verão ou talvez escreva um livro com um igualmente bonito título « one day I will write about this place ».
Fecho com uma das minhas músicas preferidas que tocou há uns minutos atrás :

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem, selvagem
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão Jovens
Tão Jovens!


Conheces ?
Vem de viagem, fazer uma residência como está na moda fazer, tomar café e falar de tudo isto.
Entretanto querida Helena parabéns, faz o que for preciso fazer nesta nova década.
Helena e os quarenta, que não sejam quarenta ladrões do tempo.
Um beijo,

Paula







da Marta



Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

                      Sophia de Mello Breyner Andresen




Não se traduz em forma de letra, aquilo que aprendi e que vivi com a Helena. Direi apenas que com ela vivo esse silêncio das coisas essenciais, que só a Poesia sabe romper. E muitas e muitas vezes regresso a cada jantar, ao linho limpo e branco das toalhas, às cuidadas e sempre renovadas jarras de flores e ao compasso surdo do relógio que teima em suspender o tempo – suspeito que para também ele poder permanecer naquelas horas, a ouvir conversar.  

Gosto de como diz “Pênafiéle”. De como se faz passar por cozinheira no talho. De quando perdemos o telefone de manhã e pedimos “call to my mobile”. De quando se esquece (ou não sabe) do que pôs nos bolos. Do folhado de alheira. De a ver com os brincos de ouro, lindos, que os Pais ofereceram. De espreitar as dedicatórias dos livros que guarda – isto, claro, depois de ter aprendido o sistema de arrumação dos mesmos, nesse lugar onde a matemática serve sempre a mente humana, e nunca, nunca o contrário. Gosto de como canta a falar, acompanhando em fiozinhos de voz a Sílvia Pérez Cruz e o Camané. De como vira e roda o copo de vinho na mão, a outra segurando o queixo, como se fumasse e aquela sala fosse um cabaret dos anos trinta... Guardo muitas das toalhas de mesa rabiscadas que espalhámos na cidade. Gosto da compaixão que manifesta para com os gatos, mesmo com aquele amarelo, com cara de banqueiro ambicioso e corrupto. Dos nomes que dá aos carros. De a ouvir dizer “que bonito!” – assim mesmo, com o claro e límpido ponto de exclamação no fim, sem mais. Do respeito e da curiosidade pelos Velhos. Dos ditados e das ladainhas: “quem muito nos namora nunca nos come”... “às vezes, temos de fazer coisas para as quais não nos sentimos preparados”- e é verdade. 

Admiro o seu Amor pelos Pais e pela Família. A Mãe Aurora e o Pai Amaro – esse rochedo bondoso e limpo, impressionante. Daquelas fotografias dele na tropa, no casamento cómico, mascarado. E ele: “chamaste?” e a Mãe Aurora “não… mas podes vir…” Comove-me o brilho nos olhos da Léna quando fala da Laura. De como diz “Apúlia”, com o som das ondas a rebentar por detrás, a espreguiçar-se desmesuradamente sobre a areia… Da lealdade aos Amigos. E aos Pais dos Amigos. Do Amor pelas coisas do campo e da cidade – não importa. E de como voámos no carro naquela manhã maluca, meias despidas e sem tomar banho, a tentar que o Mazza chegasse a tempo ao aeroporto – ela a remexer os caracóis para se pentear, os dedos cavando a cabeça. E ele, que ignorando ou achando graça ao nosso desmazelo ofegante, usava perfume de mulher e sapatos castanhos. Impecável. 

Femeeiro, taco-de-pia, calças-de-cagar-no-meio-do-milho, estar-numa-sineta, pôr-se-em-açucareiro (que é a gente pousar os braços abertos de cada lado da cintura, a pedir explicações), ir-à-madrinha, escamartilhão, fuderatis - todo este léxico ganhei e fui registando religiosamente. Tenho orgulho nas “taças” que vai ganhando no seu trabalho, para o qual nasceu. Gosto de a ler, mesmo com aquela mania maluca de começar as frases com letras minúsculas (raios), que às vezes me baralha a vista. Mas é feitio, mesmo. Nada a fazer. É a maneira de se vingar do Português dos “prazos” – ou então, a transposição gráfica da corrente contínua de ideias que é capaz de articular, tecendo, tecendo… 

Orgulho-me de com ela ter assistido ao casamento do Príncipe William e da Kate Middleton! Foi bonito, pá, ir a acenar como as princesas depois, no carro, até à Faculdade. Foi ela que me pôs o nome de “Lady Kate”. Com ela descobri o Daniel Faria, aprendi a Agustina (continuo a achar que é mais fascinante dita pela Helena do que lida por mim), e muitos que não sei dizer. Gosto das noites em que andamos a pé, e ela pára em cada prédio e conta uma história. De ir ao Asa (ao Asa de Mosca), onde há aquele empregado triste com olhos lindos azuis, de porcelana. De quando deixa a chave no café. E de como deixa o carro no parque, quase sempre sem pagar. Gosto de a ouvir falar, falar, encadear assuntos, relacionar o que está ligado por relações directas, indirectas e espúrias que… “estás a perceber?”, pergunta de repente? E eu, mesmo quando não percebo, digo, “que giro… Chiça, de facto…”… Chiça, de facto. 

Abriu-me a porta e deixou-me ficar. Uma e uma e uma outra e tantas vezes que nem sei contar. No meu quarto. Abriu outra vez a porta e mudou a minha Vida. E hoje regresso, eu no meu presépio, com o Francisco e a Maria na barriga. Nessa casa “onde a palavra se erguia como um candelabro”, como dizia o Herberto, fui e sou feliz. 


“Morra quem se nega”, disse-me a Helena. E por isso – porque é ela quem o diz e essa é a sua Palavra – sei que viverá para Sempre.







da Mãe Aurora

Neste dia especial, um grande beijo de parabéns da mãe amiga que está presente nos dias bons e nos menos bons.
Luta pelos teus sonhos, pois o dia de amanhã será sempre melhor, como diria o teu pai que, no lugar onde estiver, continua com o seu ombro amigo a apoiar-te...
Muita saúde, que sejas feliz.

Aquele abraço

Mãe Aurora








Lena e os quarenta...







Lena,
os quarenta...dentes. 
Os mostras sempre. 
São para o amigo,
aquele de perto,
ou que ja' saiu da frente.

Lena num retrato de Abril,
Lena, sempre a rir.

Lena,
os quarenta...dentes. 
Os mostras sempre.
Lena, e' uma mulher irreverente.

Lena ja’ te aviso, 
aqui, vai o meu sorriso.
Lena e' persistente, 
eu, não saio da frente!



do Né Nunes Ribeiro


da Guibé

Sempre saí da tua beira com biscoitos, cházinho ou uma boa comida no papo; doutra forma, e sempre em modo nutricional, agora para a alma, tinhas para mim a partilha de um livro, um poema ou música. Olha a Marisa Monte ou o teu Camané ou mesmo dando de caras com o Zambujo naquela Quintas de Leitura inesquecível, lembras?
E muito mais havia a listar...

Para ti, que é o Gilberto Gil, que manda:

"Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor

Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus"

da Patrícia + Carlos





sexta-feira, 3 de julho de 2015

da Joana

podia ter sido uma fotografia, mas essas, as fotografias das nossas memórias, és tu quem as tem. sai um texto, agora escrito na língua que vou lentamente desaprendendo a usar, que já me vai saindo perra. arrisco, portanto, a falta de estilo. queria evitar o tom saudoso, regressar ao passado, evocar os muitos bons momentos que passámos juntas, em várias cidades, em vários períodos. mas não estar presente este sábado é o sinal vivo da distância que continuo a querer negar, e que hoje, em particular, me grita com todas as letras. foi, por muitos anos, apenas uma distância física, que diminui de muitas formas, que me ajudaste a diminuir. começou gradualmente a ser uma distância diferente. uma distância que dói, feita da vida que vai preenchendo esta década, e que é uma vida diferente, com tudo o que tem de bom e de difícil, deu-me tanto e tirou-me tanto… escrevo-te de um minúsculo quarto de hotel em Nova Iorque, de madrugada, antes de mais um dia de trabalho. sim, eu sei que soa demasiado bem. mostra (um pouco) um lado da vida que não teria tido se tivesse ficado, se tivesse voltado, e de que gosto, não posso negar. mas esconde muitos outros lados também. esconde, entre muitos outros factos e sentimentos, o desejo profundo de ‘uma casa no campo’. o preço é muito alto, demasiado alto. as conversas, os abraços, a música, os livros, os passeios, o riso, o calor (não o meteorológico), a revolta até num mundo anestesiado, e os clichés que são tão importantes (o sol, o mar, a luz, os cheiros das manhãs como as conheci), trago-os ainda em mim, são parte de mim, como não poderiam ser? mas tudo o que me fez, de que fazes parte, está longe, muito longe do meu dia-à-dia. um dia-à-dia que só não é estéril por causa de quem me sustenta, o Jan e os meninos. porque a falta da tua – da vossa – presença constante, a impossibilidade de partilhar momentos como este, empobrece-me. sim, continuo a ter-te a meu lado, a ter-vos a meu lado. é essa presença fundamental que foi iludindo a distância, que foi escondendo os seus outros feitios, mas que lentamente vai perdendo a batalha, mesmo mantendo-se firme. pilar que não muda. pilar numa realidade diferente. um abraço. até já.

da Helena














E como uma imagem vale mais que mil palavras…
Espero que cumpras no mínimo outros 40.
O beijo e o abraço vou dar-tos pessoalmente.




quinta-feira, 2 de julho de 2015

do Castelar


XL




E, depois, saímos para a noite toda e ela fez-se pouca,

Entre telhados e arcos e colunas,

E ruelas perdidas e sujas e esconsas,

Quase sempre excessivamente oblíquas.



E fomos perna e braço e peito e boca,

Umas vezes.



Noutras ocasiões, porém,

Entre guitarras e poemas queridos,

O sofá fez-se banco de jardim,

E tomámos as paredes por árvores,

E matámos uma sede tremenda de nos conversarmos,

A golpes e goles de vinho e de cerveja,

E, febris, delirámos e degolámos

Todos os estafermos que nos moíam.



E ganhámos todas as horas em que,

À força de palavras e de olhos e de vozes,

Gerámos portentos e assombrámos

A própria substância das vidas

Que, sem dar por isso, moldávamos,

Revezando afagos e talhadas de cinzel.



E rimos profusamente e tão menos do que podíamos,

Mas, ainda assim, tanto.



Houve dias ligeiros e noites fátuas

E houve dias amargos e noites de angústia.



E fomos pai e mãe e espírito-santo.



E assim nos livrámos, para sempre, de todo o mal.