quarta-feira, 1 de julho de 2015

da Sofia

É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual."

Pablo Neruda


O poema foi roubado ao conforto das aspas, porque bem sabes que sou mais de comprar feito do que fazer eu mesma.E faço-o no conforto de saber que ao longo de mais de vinte anos não deixamos nada à imaginação. Sentimos tudo, dissemos tudo e mostramos tudo, sem pudor nem reservas, que entre amigos tudo vale, desde que seja genuíno e por bem.
Os risos, as lágrimas, as palavras e os silêncios mais não são que a fibra de que somos feitos e da que se constroem amizades como a nossa. Não o sabia quando te conheci, mais adepta do endurecer o espírito e diminuir os caprichos da alma, mas soube aprender a tempo e em bom tempo.


Partilhamos livros, música, filmes, amigos e famílias, gostos e o gosto por gostar até ao infinito, à mesa ou de copo na mão, que o espírito também gosta de coisas espirituosas. Desfiamos conversas noite dentro ou madrugada fora, sobre tudo e sobre nada, mas delas prefiro não deixar registo público. Como diz o outro, livrai-nos dos amigos indiscretos …


Parafraseando, eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que o nosso passado é digno de inveja. Não trocava um segundo que fosse.

No futuro, no nosso futuro, que será seguramente uma versão melhorada dos verdes anos que deixamos para trás, vejo-te como o meu Waldorf (ou o meu Statler, depois decidimos quem é quem). E lá estamos nós, no nosso camarote, uma de nós a exibir os seus cabelos grisalhos e a outra a tinta com que os cobriu (depois vemos também quem exibe o quê), inseparáveis, a atirar à vez piadas inconsequentes só pela piada de recusarmos crescer, porque quem viveu o que nós vivemos e como nós vivemos não deve nada a ninguém. Também consegues ver-nos?

Beijo grande de parabéns e abraço apertado de gratidão. Até já.

E agora um apontamento musical da nossa lavra :-)









da Patrícia

1994, 2 de Novembro. Era Novembro só no calendário, porque era Verão para os que nos recebiam, já desabrochados, e Primavera para nós, que chegávamos, meio a medo, ávidos de saber e conhecer tudo o que eles já dominavam.

Atravessava a Porta Férrea na companhia de duas minhas semelhantes, novatas, caloiras… De entre o alarido que se fazia ouvir soou uma voz mais forte que as outras “Oh caloira!!”… 

Agigantei o passo na esperança de que um pretenso ar mais seguro não me denunciasse… lá cantou a mesma voz “É melhor vires agora, depois será sempre pior…”

Assim te conheci, dura, sem imaginar que estava prestes a ser colhida por um furacão.

Os dias passaram, os anos também, mas aquela frase nunca deixou de ecoar na minha cabeça “É melhor vires agora, depois será sempre pior…”

A certeza de que as coisas, mesmo as mais amargas, se temperam com mais facilidade se as enfrentarmos assim, agora, porque mais tarde será sempre pior.

Assim foi no primeiro chumbo, em que lascámos as pedras da Rua do Norte em direção à Sé Velha, numa correria desenfreada, eu a dizer que não voltava mais (à medida que ia lançando os livros de economia política guarda vestidos adentro) e tu a trovejares que não tinha outra hipótese que não fosse continuar (à medida que os fazia sair, guarda vestidos fora, num quarto empestado de inexperiência e desnorte…).

Assim foram todos os anos a seguir. Sempre te vi assim, na expressão do meu pai (que tanto gosta de ti) a agarrar o touro pelos cornos.

A coragem sempre onde é preciso, a tristeza diluída na letra de um poema ou na melodia de uma canção, mas sem nunca toldar o arrojo, a firmeza de quem não se demove perante o menos fácil, o menos agradável.

A casa sempre aberta, com o cheiro a livros e a notas de música… os dias quase sempre pintados a contas de Viana, que uma rapariga também se quer assim, a brilhar.

Abres o sorriso e tens sempre aquele ar fresco, de quem guarda os linhos na gaveta com sabonetes que se traziam de Espanha…

A lição é enorme. Confesso não conseguir pô-la em prática tantas vezes quanto gostaria.

Já dei por mim a tentar convencer o touro a doces, ou a troco de um copo de vinho, desfocando-o, mas “É melhor vires agora, depois será sempre pior…” não é coisa para qualquer um.

Lembro-me tantas vezes de ti principalmente nos meus achaques de autocomiseração, ou self pity (já dizem os Clã na canção “problema de expressão” “a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém…”). 

Ainda que por dentro te roa, doa e moa…

Assenta-te que nem uma luva:

“...E quando a vida te dói, canta, canta, canta, canta, ninguém precisa saber que tens um nó na garganta". (fugiu-se-me da memória a quem pertence…)

Venham, pelo menos, mais 40, Trigueira. Entre lágrimas, abraços e beijos havemos de voltar a festejar.

Patrícia

da Isabel


“O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida.”
Miguel Esteves Cardoso


Conheço-te há duas décadas e trago na memória o dia em que nos conhecemos. Estávamos em 1993. Era visível nos nossos rostos a excitação daquele primeiro dia de aulas na FDUC. Seria também o primeiro dia de uma amizade que soubemos segurar.

Este é o momento de falar de ti. Não de (quase) quarenta anos que já carregas, mas de vinte que já contamos juntas, numa amizade que se fez de partilha, lealdade e respeito.
E falar para ti, na (minha) vaidade pela pessoa que és.
Ainda bem que te tenho. Não sei se foi sorte, se engenho, se a sorte de ter engenho na vida. Terá sido fado, fé, cravo?

Falar de ti.
Sabes, nunca te vejo empoleirada na tristeza. Quando esta te irrompe pela vida não lhe dás conforto que chegue para se instalar. Não vives no passado e lanças-te para o futuro. Dizes muitas vezes que o presente é o lugar onde tudo acontece.
Já experimentaste dias duros. Daqueles em que o sol brilha, o céu está limpo mas o dia é duro na mesma. Dias em que contrariada tiveste de ouvir que teria de ser assim. Dias em que os braços não quiseram largar aquele abraço, pesando a saudade antecipada de tudo o que ia. E mesmo assim foste a força, o esteio e o colo eterno dos que representavam tudo o que ficava.
Hoje, com 40 já feitos, sei que as melhores pessoas são aquelas que digeriram a tristeza da vida e converteram isso em fermento de carácter. São as que acreditam genuinamente nas pessoas e por isso ainda se surpreendem. São as que conheceram a evidência mais crua da vida e, mesmo assim, arranjaram forças para se reinventarem. São ainda as que olham para uma planície árida e imaginam um mar azul a perder-se no horizonte. E é assim que eu te vejo.

As pessoas resolvidas são aquelas que choraram na altura certa e seguiram em frente, que deram desconto ao sadismo da vida, que condescenderam com as incongruências do destino, que não desistiram dos seres humanos só porque nem tudo é perfeito, nem ficaram reféns na procura passiva do sentido da vida. E é por isso que essas pessoas se sentem responsáveis por cuidarem do (seu) mundo, como eu te vejo cuidar do teu.

Nunca foges a um abraço apertado e perdes-te em boas conversas. Trocas a monotonia do sofá por passeios a pé e perguntas como consegue a mulher viver sempre no reino dos saltos altos.

Gostas de música, de um bom vinho e cozinhar para os outros.
Nunca repetes uma receita porque lá em casa (da mãe Aurora e do pai Amaro), onde sempre se cozinhou muito, sempre prevalecera “a criatividade e um inevitável ingrediente secreto- o amor ao que se faz e a quem se dá de comer”. E penso que será por isso que gostas tanto do poema do Daniel Faria “as mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões”, porque naquele palco, toda a vida, as mulheres puseram a mesa ao redor do coração.

Gostas de livros (muito).
Dizes que te preenchem e te acrescentam. Que aprendes muito com eles. Talvez saiba porquê: através deles conseguimos ver a vida como um diálogo fabuloso que se constrói entre os sonhos e a realidade, onde devemos ousar, como se em cada fim houvesse o começo de alguma coisa nova e onde devemos viver mais do sol de quem amamos do que do consolo da sua sombra.

Gostas de fotografia.
Sempre de máquina na mão enquadras, achas o melhor ângulo e procuras o que o horizonte te oferece. E só se vai à linha que separa a terra do céu quando se acolhe o que está no meio, a meio e a caminho.

Gostas de cravos vermelhos.
Falas de ti e dos teus com o orgulho de quem cresceu e lutou com e pelos valores de abril. Desse legado ficara a firme convicção de que a mulher deve ser senhora de si antes de querer ser dona de outra coisa qualquer.

És mulher de gargalhada fácil. Dizes que quando a ocasião merece devemos sempre festejar (de preferência com um bom porto).É que se nos defendemos muito o “inimigo” ainda se anima. Dizes que não percebes que haja gente que viva numa consciência envergonhada de ser feliz. Em vinte anos deu para chorar muito mas para rir ainda mais.

Falar para ti.
Orgulho-me da escolha que fiz.
Subscrevo inteiramente as palavras do MEC quando diz que “(…) os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos”.
Essa escolha dá-nos o direito a uma amizade que não impõe condições. Nas verdadeiras amizades gostamos com a espontaneidade com que respiramos. Não usamos máscaras e dizemos as palavras com o verdadeiro significado que lhes queremos dar.

Estiveste sempre aqui. Quando a água me inundou os olhos e a voz tremeu nas coisas que quis salvar, quando não tive força nem garra para lutar pelo que se escapava; quando tudo isso passou, quando não tive medo de andar sozinha sobre o cru da vida e a vida me deu a dobrar. Obrigada.

Neste dia de festa, dos teus 40, posso afirmar que na nossa diferença soubemos descobrir um universo de coisas em comum e isso diz muito de uma amizade. Penso que não será para todos.
De quem te vê todos os dias na secretária ao lado,

IA









da Elsa

AMIGOS PARA SEMPRE
" Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.
Nesta semana, tenho almoçado com amigos meus grandes, que, pela primeira vez nas nossas vidas, não vejo há muitos anos. Cada um começa a falar comigo como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos.
Nada falha. Tudo dispara como se nos estivera – e está – na massa do sangue: a excitação de contar coisas e partilhar ninharias; as risotas por piadas de há muito repetidas; as promessas de esperanças que estão há que décadas por realizar.
Há grandes amigos que tenho a sorte de ter que insistem na importância da Presença com letra grande. Até agora nunca concordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição. Enganei-me. O melhor que os amigos e as amigas têm a fazer é verem-se cada vez que podem. É verdade que, mesmo tendo passado dez anos, sente-se o prazer inencontrável de reencontrar quem se pensava nunca mais encontrar. O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida. "

MEC