“O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida.”
Miguel Esteves Cardoso
Conheço-te
há duas décadas e trago na memória o dia em que nos conhecemos. Estávamos em 1993.
Era visível nos nossos rostos a excitação daquele primeiro dia de aulas na FDUC.
Seria também o primeiro dia de uma amizade que soubemos segurar.
Este é o momento de falar
de ti. Não de (quase) quarenta anos que já carregas, mas de vinte que já
contamos juntas, numa amizade que se fez de partilha, lealdade e respeito.
E falar para ti, na (minha)
vaidade pela pessoa que és.
Ainda bem que te
tenho. Não sei se foi sorte, se engenho, se a sorte de ter engenho na vida. Terá
sido fado, fé, cravo?
Falar de ti.
Sabes, nunca te vejo
empoleirada na tristeza. Quando esta te irrompe pela vida não lhe dás conforto
que chegue para se instalar. Não vives no passado e lanças-te para o futuro.
Dizes muitas vezes que o presente é o lugar onde tudo acontece.
Já experimentaste dias
duros. Daqueles em que o sol brilha, o céu está limpo mas o dia é duro na
mesma. Dias em que contrariada tiveste de ouvir que teria de ser assim. Dias em
que os braços não quiseram largar aquele abraço, pesando a saudade antecipada
de tudo o que ia. E mesmo assim foste a força, o esteio e o colo eterno dos que
representavam tudo o que ficava.
Hoje, com 40 já feitos,
sei que as melhores pessoas são aquelas que digeriram a tristeza da vida e
converteram isso em fermento de carácter. São as que acreditam genuinamente nas
pessoas e por isso ainda se surpreendem. São as que conheceram a evidência mais
crua da vida e, mesmo assim, arranjaram forças para se reinventarem. São ainda
as que olham para uma planície árida e imaginam um mar azul a perder-se no
horizonte. E é assim que eu te vejo.
As pessoas resolvidas são
aquelas que choraram na altura certa e seguiram em frente, que deram desconto ao
sadismo da vida, que condescenderam com as incongruências do destino, que não
desistiram dos seres humanos só porque nem tudo é perfeito, nem ficaram reféns
na procura passiva do sentido da vida. E é por isso que essas pessoas se sentem
responsáveis por cuidarem do (seu) mundo, como eu te vejo cuidar do teu.
Nunca foges a um
abraço apertado e perdes-te em boas conversas. Trocas a monotonia do sofá por
passeios a pé e perguntas como consegue a mulher viver sempre no reino dos
saltos altos.
Gostas de música, de
um bom vinho e cozinhar para os outros.
Nunca repetes uma
receita porque lá em casa (da mãe Aurora e do pai Amaro), onde sempre se
cozinhou muito, sempre prevalecera “a criatividade
e um inevitável ingrediente secreto- o amor ao que se faz e a quem se dá de
comer”. E penso que será por isso que gostas tanto do poema do Daniel Faria
“as mulheres aspiram a casa para dentro
dos pulmões”, porque naquele palco, toda a vida, as mulheres puseram a mesa
ao redor do coração.
Gostas de livros (muito).
Dizes que te preenchem
e te acrescentam. Que aprendes muito com eles. Talvez saiba porquê: através
deles conseguimos ver a vida como um diálogo fabuloso que se constrói entre os
sonhos e a realidade, onde devemos ousar, como se em cada fim houvesse o começo
de alguma coisa nova e onde devemos viver mais do sol de quem amamos do que do
consolo da sua sombra.
Gostas de fotografia.
Sempre de máquina na
mão enquadras, achas o melhor ângulo e procuras o que o horizonte te oferece. E
só se vai à linha que separa a terra do céu quando se acolhe o que está no
meio, a meio e a caminho.
Gostas de cravos
vermelhos.
Falas de ti e dos teus
com o orgulho de quem cresceu e lutou com e pelos valores de abril. Desse
legado ficara a firme convicção de que a mulher deve ser senhora de si antes de
querer ser dona de outra coisa qualquer.
És mulher de
gargalhada fácil. Dizes que quando a ocasião merece devemos sempre festejar (de
preferência com um bom porto).É que se nos defendemos muito o “inimigo” ainda
se anima. Dizes que não percebes que haja gente que viva numa consciência
envergonhada de ser feliz. Em vinte anos deu para chorar muito mas para rir
ainda mais.
Falar para ti.
Orgulho-me da escolha
que fiz.
Subscrevo inteiramente
as palavras do MEC quando diz que “(…) os
amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos”.
Essa escolha dá-nos o
direito a uma amizade que não impõe condições. Nas verdadeiras amizades
gostamos com a espontaneidade com que respiramos. Não usamos máscaras e dizemos
as palavras com o verdadeiro significado que lhes queremos dar.
Estiveste sempre aqui.
Quando a água me inundou os olhos e a voz tremeu nas coisas que quis salvar,
quando não tive força nem garra para lutar pelo que se escapava; quando tudo
isso passou, quando não tive medo de andar sozinha sobre o cru da vida e a vida
me deu a dobrar. Obrigada.
Neste dia de festa, dos teus 40, posso afirmar que na nossa diferença soubemos
descobrir um universo de coisas em comum e isso diz muito de uma amizade. Penso
que não será para todos.
De quem te vê todos os dias na secretária ao lado,
IA


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