quarta-feira, 1 de julho de 2015

da Isabel


“O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida.”
Miguel Esteves Cardoso


Conheço-te há duas décadas e trago na memória o dia em que nos conhecemos. Estávamos em 1993. Era visível nos nossos rostos a excitação daquele primeiro dia de aulas na FDUC. Seria também o primeiro dia de uma amizade que soubemos segurar.

Este é o momento de falar de ti. Não de (quase) quarenta anos que já carregas, mas de vinte que já contamos juntas, numa amizade que se fez de partilha, lealdade e respeito.
E falar para ti, na (minha) vaidade pela pessoa que és.
Ainda bem que te tenho. Não sei se foi sorte, se engenho, se a sorte de ter engenho na vida. Terá sido fado, fé, cravo?

Falar de ti.
Sabes, nunca te vejo empoleirada na tristeza. Quando esta te irrompe pela vida não lhe dás conforto que chegue para se instalar. Não vives no passado e lanças-te para o futuro. Dizes muitas vezes que o presente é o lugar onde tudo acontece.
Já experimentaste dias duros. Daqueles em que o sol brilha, o céu está limpo mas o dia é duro na mesma. Dias em que contrariada tiveste de ouvir que teria de ser assim. Dias em que os braços não quiseram largar aquele abraço, pesando a saudade antecipada de tudo o que ia. E mesmo assim foste a força, o esteio e o colo eterno dos que representavam tudo o que ficava.
Hoje, com 40 já feitos, sei que as melhores pessoas são aquelas que digeriram a tristeza da vida e converteram isso em fermento de carácter. São as que acreditam genuinamente nas pessoas e por isso ainda se surpreendem. São as que conheceram a evidência mais crua da vida e, mesmo assim, arranjaram forças para se reinventarem. São ainda as que olham para uma planície árida e imaginam um mar azul a perder-se no horizonte. E é assim que eu te vejo.

As pessoas resolvidas são aquelas que choraram na altura certa e seguiram em frente, que deram desconto ao sadismo da vida, que condescenderam com as incongruências do destino, que não desistiram dos seres humanos só porque nem tudo é perfeito, nem ficaram reféns na procura passiva do sentido da vida. E é por isso que essas pessoas se sentem responsáveis por cuidarem do (seu) mundo, como eu te vejo cuidar do teu.

Nunca foges a um abraço apertado e perdes-te em boas conversas. Trocas a monotonia do sofá por passeios a pé e perguntas como consegue a mulher viver sempre no reino dos saltos altos.

Gostas de música, de um bom vinho e cozinhar para os outros.
Nunca repetes uma receita porque lá em casa (da mãe Aurora e do pai Amaro), onde sempre se cozinhou muito, sempre prevalecera “a criatividade e um inevitável ingrediente secreto- o amor ao que se faz e a quem se dá de comer”. E penso que será por isso que gostas tanto do poema do Daniel Faria “as mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões”, porque naquele palco, toda a vida, as mulheres puseram a mesa ao redor do coração.

Gostas de livros (muito).
Dizes que te preenchem e te acrescentam. Que aprendes muito com eles. Talvez saiba porquê: através deles conseguimos ver a vida como um diálogo fabuloso que se constrói entre os sonhos e a realidade, onde devemos ousar, como se em cada fim houvesse o começo de alguma coisa nova e onde devemos viver mais do sol de quem amamos do que do consolo da sua sombra.

Gostas de fotografia.
Sempre de máquina na mão enquadras, achas o melhor ângulo e procuras o que o horizonte te oferece. E só se vai à linha que separa a terra do céu quando se acolhe o que está no meio, a meio e a caminho.

Gostas de cravos vermelhos.
Falas de ti e dos teus com o orgulho de quem cresceu e lutou com e pelos valores de abril. Desse legado ficara a firme convicção de que a mulher deve ser senhora de si antes de querer ser dona de outra coisa qualquer.

És mulher de gargalhada fácil. Dizes que quando a ocasião merece devemos sempre festejar (de preferência com um bom porto).É que se nos defendemos muito o “inimigo” ainda se anima. Dizes que não percebes que haja gente que viva numa consciência envergonhada de ser feliz. Em vinte anos deu para chorar muito mas para rir ainda mais.

Falar para ti.
Orgulho-me da escolha que fiz.
Subscrevo inteiramente as palavras do MEC quando diz que “(…) os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos”.
Essa escolha dá-nos o direito a uma amizade que não impõe condições. Nas verdadeiras amizades gostamos com a espontaneidade com que respiramos. Não usamos máscaras e dizemos as palavras com o verdadeiro significado que lhes queremos dar.

Estiveste sempre aqui. Quando a água me inundou os olhos e a voz tremeu nas coisas que quis salvar, quando não tive força nem garra para lutar pelo que se escapava; quando tudo isso passou, quando não tive medo de andar sozinha sobre o cru da vida e a vida me deu a dobrar. Obrigada.

Neste dia de festa, dos teus 40, posso afirmar que na nossa diferença soubemos descobrir um universo de coisas em comum e isso diz muito de uma amizade. Penso que não será para todos.
De quem te vê todos os dias na secretária ao lado,

IA









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