sábado, 4 de julho de 2015

Madrinha

Estimada madrinha (aka Helena!),
Quero deixar uma mensagem simples e pequena: para as pessoas serem especiais nas nossas vidas bastam serem inspiradoras e honestamente amigas, no sentido lato da palavra. A amizade prova-se nas circunstâncias e adversidades; a inspiração, essa já não é para qualquer um! Admiro a tua força, sapiência, vontade de viver, e sobretudo...o sorriso e a franqueza (às vezes dura) das palavras.
No meio de tanta "moleza" só é pena seres "camarada"! Ahahahahahah, tinha que meter uma provocação! Afinal pode dar direito a uma bela tarde de conversa (a levar porrada) com umas quantas Brisas e um bom espumante bruto. Tudo antes dos 41.

Um abraço forte e cheio de sorrisos!
Zé Martins

Helena escreve a Ana, não quero perder a oportunidade de te desejar tudo de bom! Um grande beijinho e até breve!
Ana C

Let's rock!

Mulher, 

Ao longo destes anos praticámos quase todas as traficâncias que alimentam uma amizade. Iniciámo-nos nas traquinices e malícias da adolescência, confidenciámos os anseios e frustrações da transição para a idade adulta, viajámos para norte e para sul, entusiasmámo-nos com os mesmos livros e deixámo-mos contagiar pela música, em regra suaves murmúrios, quase sempre baladas tristes. 


Na hora de assinalar a tua simbólica transição para a meia idade, acho que está na hora de virar o disco. Deixo-te uma play-list para te acompanhar nos próximos 40 anos, cheia de ritmo e só levemente polvilhada de melancolia. Let's rock! 

da Paula Rainha





Querida Helena,
Estou um pouco como a Joana, já não sei se penso e falo (bem) em Português mas neste teu aniversário tento e tento e tento. Bendito seja, porque tinha saudades. Escrevo sentada no jardim, com um calor bem Português a untar-me a pele e com a Maria Betânia a cantar « Formosa não faz assim » para toda a rua ouvir.
Ao ler o nome deste blogue, "Léna e os quarenta", recordei-me imediatamente deste livro, um dos meus preferidos de uma colecção à qual volto ocasionalmente, quando preciso de evadir o turbilhão do presente e voltar a sentir o tempo sem tempo da minha infância.
Esta colecção foi publicada entre 1977 e 1979 e comprava-se por correspondência. Pertencia aos meus primos mas eu gostava tanto ou mais dela que a minha tia acabou por ma oferecer. Ao escrever isto recordo-me também do Portugal no qual eu lia estes livros. Um país que já não existe, onde não se vêem tantas nespereiras e figueiras nos quintais, nem rebanhos nos terrenos vagos da cidade. Um Portugal onde se atiravam cestinhos da janela com as chaves de casa ou o dinheiro para o pão, onde ser apanhavam caracóis à beira da estrada e pinhas cheias nos pinhais. Onde se descascavam sacas e sacas de ervilhas, sem sequer acender a televisão porque, em qualquer caso, só dava a Tele-escola. Não tinhamos só pouco dinheiro como hoje, tinhamos poucas coisas e poucas lojas. E possivelmente não precisavamos da maioria.
Durante uma década não abri este livro porque o tinha encaixotado em Lisboa, a espera até que eu chegasse ao destino final e assentasse arraiais. Desde que aqui cheguei, tenho frequentemente e propositadamente parado e esbanjado tempo, também para reler livros como este e assim reviver os dias sem fim passados sobretudo com a minha avó, as primeiras leituras, o « Abre-te Sésamo » e o deslumbre com as ilustrações, olhadas detalhe por detalhe durante horas sem fim.
Por ter as minhas filhas estou talvez mais sensibilizada para a importância da infância em toda a nossa vida, mas acho que este retorno à infância se deve muito também ao facto de que começei a não ter tempo de fazer memórias – quando somos crianças lemos e voltamos a ler, olhamos e voltamos a olhar, pensamos e voltamos a pensar e eu estava a deixar de o fazer. Lia um livro e não o voltava a ler porque tinha uma pilha para ler, tirava fotos e não as via novamente porque tinha mais para tirar, o pensamento tinha sempre um objectivo. Tinha-me tornado uma pessoas (a)tarefada, e vivia consumida pelas tarefas. O meu marido e as minhas filhas forçaram-me a ir além do “eu não posso parar” e efectivamente parar. É materialmente assustador e é física e psicologicamente doloroso começar ou voltar a viver a uma outra velocidade, ficar para trás. Isto até se perceber que estavamos na corrida por acidente e que para alguns de nós, é essencial viver devagar,  à velocidade mais lenta de quem somos, e com isso ser o mais possível livre em toda a profundidade e humanidade dessa grande palavra que é liberdade.
Quando penso em ti penso numa pessoa (a)tarefada, que não vive à velocidade de quem é. Não o podes fazer, dirás tu. Talvez. Se te pudesse dar algo hoje seria isso, o tempo para ser quem és, livre. Não podendo, deixo-te o convite de pegares nos teus livros da infância e não a pilha que tens para ler e partires para longe, para um sitio onde só haja água, pão, fruta, mar, vento, sol e estrelas e música, sempre música.
É importante ter tempo para pensa rem coisas que aparentemente não interessam para nada. Vê bem esta história, por exemplo.
Há uns sete anos, conheci uma uma moçambicana. Nesse encontro ela contou-me que tinha sido uma « retornada » em Portugal e que no inicio dos anos 80 pôde voltar a Maputo de visita. Estava tão feliz de voltar a casa que foi directamente do aeroporto para a sua antiga rua. Quando chegou percebeu que já não vivia lá quase ninguém que ela conhecesse. Porém, aquele conjunto específico de [vizinhos/janelas com cortinas de um certo estilo/roupa estendida/bolas esquecidas no quintal/cão que ladra/carros estacionados/senhora da padaria] que ela tinha na memória já não existia. Não ficou sequer triste, foi-se embora, nunca mais pensou nisso e nunca mais voltou.
Tenho pensado muito nesta história ao longo dos anos mas ainda não consegui entendê-la em toda a sua profundidade. Acho, às vezes, que ela percebeu que era como se as pessoas estivessem vivas e continuassem a viver todas juntas, nos mesmos prédios e rua mas noutra dimensão. Cheguei mais perto de entender a história quando a minha avó faleceu. O esvaziar e vender da casa não significaram muito porque eram presente e este era completamente desfazado de mim, como se fosse uma experiência de alguém de outro. A minha avó não tinha, na verdade morrido para mim, continuava comigo a-problematicamente noutra dimensão, a dimensão viva do meu ser. É que as memórias da infância são um tempo e espaço vivos nos quais vivemos todos os dias da nossa vida.
Mas acho que há ângulos do episódio que ainda não explorei. E ainda não o cruzei com aquela outra história do neto da D. Micas que voltou aos 60 anos à rua para ver a casa da avó e que falou comigo, uma estranha sentada na esplanada ao lado, que o olhava sem perceber o que fazia naquele beco. Mas bom, talvez pense um pouco mais em tudo isto este Verão ou talvez escreva um livro com um igualmente bonito título « one day I will write about this place ».
Fecho com uma das minhas músicas preferidas que tocou há uns minutos atrás :

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem, selvagem
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão Jovens
Tão Jovens!


Conheces ?
Vem de viagem, fazer uma residência como está na moda fazer, tomar café e falar de tudo isto.
Entretanto querida Helena parabéns, faz o que for preciso fazer nesta nova década.
Helena e os quarenta, que não sejam quarenta ladrões do tempo.
Um beijo,

Paula







da Marta



Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

                      Sophia de Mello Breyner Andresen




Não se traduz em forma de letra, aquilo que aprendi e que vivi com a Helena. Direi apenas que com ela vivo esse silêncio das coisas essenciais, que só a Poesia sabe romper. E muitas e muitas vezes regresso a cada jantar, ao linho limpo e branco das toalhas, às cuidadas e sempre renovadas jarras de flores e ao compasso surdo do relógio que teima em suspender o tempo – suspeito que para também ele poder permanecer naquelas horas, a ouvir conversar.  

Gosto de como diz “Pênafiéle”. De como se faz passar por cozinheira no talho. De quando perdemos o telefone de manhã e pedimos “call to my mobile”. De quando se esquece (ou não sabe) do que pôs nos bolos. Do folhado de alheira. De a ver com os brincos de ouro, lindos, que os Pais ofereceram. De espreitar as dedicatórias dos livros que guarda – isto, claro, depois de ter aprendido o sistema de arrumação dos mesmos, nesse lugar onde a matemática serve sempre a mente humana, e nunca, nunca o contrário. Gosto de como canta a falar, acompanhando em fiozinhos de voz a Sílvia Pérez Cruz e o Camané. De como vira e roda o copo de vinho na mão, a outra segurando o queixo, como se fumasse e aquela sala fosse um cabaret dos anos trinta... Guardo muitas das toalhas de mesa rabiscadas que espalhámos na cidade. Gosto da compaixão que manifesta para com os gatos, mesmo com aquele amarelo, com cara de banqueiro ambicioso e corrupto. Dos nomes que dá aos carros. De a ouvir dizer “que bonito!” – assim mesmo, com o claro e límpido ponto de exclamação no fim, sem mais. Do respeito e da curiosidade pelos Velhos. Dos ditados e das ladainhas: “quem muito nos namora nunca nos come”... “às vezes, temos de fazer coisas para as quais não nos sentimos preparados”- e é verdade. 

Admiro o seu Amor pelos Pais e pela Família. A Mãe Aurora e o Pai Amaro – esse rochedo bondoso e limpo, impressionante. Daquelas fotografias dele na tropa, no casamento cómico, mascarado. E ele: “chamaste?” e a Mãe Aurora “não… mas podes vir…” Comove-me o brilho nos olhos da Léna quando fala da Laura. De como diz “Apúlia”, com o som das ondas a rebentar por detrás, a espreguiçar-se desmesuradamente sobre a areia… Da lealdade aos Amigos. E aos Pais dos Amigos. Do Amor pelas coisas do campo e da cidade – não importa. E de como voámos no carro naquela manhã maluca, meias despidas e sem tomar banho, a tentar que o Mazza chegasse a tempo ao aeroporto – ela a remexer os caracóis para se pentear, os dedos cavando a cabeça. E ele, que ignorando ou achando graça ao nosso desmazelo ofegante, usava perfume de mulher e sapatos castanhos. Impecável. 

Femeeiro, taco-de-pia, calças-de-cagar-no-meio-do-milho, estar-numa-sineta, pôr-se-em-açucareiro (que é a gente pousar os braços abertos de cada lado da cintura, a pedir explicações), ir-à-madrinha, escamartilhão, fuderatis - todo este léxico ganhei e fui registando religiosamente. Tenho orgulho nas “taças” que vai ganhando no seu trabalho, para o qual nasceu. Gosto de a ler, mesmo com aquela mania maluca de começar as frases com letras minúsculas (raios), que às vezes me baralha a vista. Mas é feitio, mesmo. Nada a fazer. É a maneira de se vingar do Português dos “prazos” – ou então, a transposição gráfica da corrente contínua de ideias que é capaz de articular, tecendo, tecendo… 

Orgulho-me de com ela ter assistido ao casamento do Príncipe William e da Kate Middleton! Foi bonito, pá, ir a acenar como as princesas depois, no carro, até à Faculdade. Foi ela que me pôs o nome de “Lady Kate”. Com ela descobri o Daniel Faria, aprendi a Agustina (continuo a achar que é mais fascinante dita pela Helena do que lida por mim), e muitos que não sei dizer. Gosto das noites em que andamos a pé, e ela pára em cada prédio e conta uma história. De ir ao Asa (ao Asa de Mosca), onde há aquele empregado triste com olhos lindos azuis, de porcelana. De quando deixa a chave no café. E de como deixa o carro no parque, quase sempre sem pagar. Gosto de a ouvir falar, falar, encadear assuntos, relacionar o que está ligado por relações directas, indirectas e espúrias que… “estás a perceber?”, pergunta de repente? E eu, mesmo quando não percebo, digo, “que giro… Chiça, de facto…”… Chiça, de facto. 

Abriu-me a porta e deixou-me ficar. Uma e uma e uma outra e tantas vezes que nem sei contar. No meu quarto. Abriu outra vez a porta e mudou a minha Vida. E hoje regresso, eu no meu presépio, com o Francisco e a Maria na barriga. Nessa casa “onde a palavra se erguia como um candelabro”, como dizia o Herberto, fui e sou feliz. 


“Morra quem se nega”, disse-me a Helena. E por isso – porque é ela quem o diz e essa é a sua Palavra – sei que viverá para Sempre.







da Mãe Aurora

Neste dia especial, um grande beijo de parabéns da mãe amiga que está presente nos dias bons e nos menos bons.
Luta pelos teus sonhos, pois o dia de amanhã será sempre melhor, como diria o teu pai que, no lugar onde estiver, continua com o seu ombro amigo a apoiar-te...
Muita saúde, que sejas feliz.

Aquele abraço

Mãe Aurora








Lena e os quarenta...







Lena,
os quarenta...dentes. 
Os mostras sempre. 
São para o amigo,
aquele de perto,
ou que ja' saiu da frente.

Lena num retrato de Abril,
Lena, sempre a rir.

Lena,
os quarenta...dentes. 
Os mostras sempre.
Lena, e' uma mulher irreverente.

Lena ja’ te aviso, 
aqui, vai o meu sorriso.
Lena e' persistente, 
eu, não saio da frente!



do Né Nunes Ribeiro


da Guibé

Sempre saí da tua beira com biscoitos, cházinho ou uma boa comida no papo; doutra forma, e sempre em modo nutricional, agora para a alma, tinhas para mim a partilha de um livro, um poema ou música. Olha a Marisa Monte ou o teu Camané ou mesmo dando de caras com o Zambujo naquela Quintas de Leitura inesquecível, lembras?
E muito mais havia a listar...

Para ti, que é o Gilberto Gil, que manda:

"Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor

Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus"

da Patrícia + Carlos