Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não se traduz em forma de letra, aquilo que aprendi e que vivi com a Helena. Direi apenas que com ela vivo esse silêncio das coisas essenciais, que só a Poesia sabe romper. E muitas e muitas vezes regresso a cada jantar, ao linho limpo e branco das toalhas, às cuidadas e sempre renovadas jarras de flores e ao compasso surdo do relógio que teima em suspender o tempo – suspeito que para também ele poder permanecer naquelas horas, a ouvir conversar.
Gosto de como diz “Pênafiéle”. De como se faz passar por cozinheira no talho. De quando perdemos o telefone de manhã e pedimos “call to my mobile”. De quando se esquece (ou não sabe) do que pôs nos bolos. Do folhado de alheira. De a ver com os brincos de ouro, lindos, que os Pais ofereceram. De espreitar as dedicatórias dos livros que guarda – isto, claro, depois de ter aprendido o sistema de arrumação dos mesmos, nesse lugar onde a matemática serve sempre a mente humana, e nunca, nunca o contrário. Gosto de como canta a falar, acompanhando em fiozinhos de voz a Sílvia Pérez Cruz e o Camané. De como vira e roda o copo de vinho na mão, a outra segurando o queixo, como se fumasse e aquela sala fosse um cabaret dos anos trinta... Guardo muitas das toalhas de mesa rabiscadas que espalhámos na cidade. Gosto da compaixão que manifesta para com os gatos, mesmo com aquele amarelo, com cara de banqueiro ambicioso e corrupto. Dos nomes que dá aos carros. De a ouvir dizer “que bonito!” – assim mesmo, com o claro e límpido ponto de exclamação no fim, sem mais. Do respeito e da curiosidade pelos Velhos. Dos ditados e das ladainhas: “quem muito nos namora nunca nos come”... “às vezes, temos de fazer coisas para as quais não nos sentimos preparados”- e é verdade.
Admiro o seu Amor pelos Pais e pela Família. A Mãe Aurora e o Pai Amaro – esse rochedo bondoso e limpo, impressionante. Daquelas fotografias dele na tropa, no casamento cómico, mascarado. E ele: “chamaste?” e a Mãe Aurora “não… mas podes vir…” Comove-me o brilho nos olhos da Léna quando fala da Laura. De como diz “Apúlia”, com o som das ondas a rebentar por detrás, a espreguiçar-se desmesuradamente sobre a areia… Da lealdade aos Amigos. E aos Pais dos Amigos. Do Amor pelas coisas do campo e da cidade – não importa. E de como voámos no carro naquela manhã maluca, meias despidas e sem tomar banho, a tentar que o Mazza chegasse a tempo ao aeroporto – ela a remexer os caracóis para se pentear, os dedos cavando a cabeça. E ele, que ignorando ou achando graça ao nosso desmazelo ofegante, usava perfume de mulher e sapatos castanhos. Impecável.
Femeeiro, taco-de-pia, calças-de-cagar-no-meio-do-milho, estar-numa-sineta, pôr-se-em-açucareiro (que é a gente pousar os braços abertos de cada lado da cintura, a pedir explicações), ir-à-madrinha, escamartilhão, fuderatis - todo este léxico ganhei e fui registando religiosamente. Tenho orgulho nas “taças” que vai ganhando no seu trabalho, para o qual nasceu. Gosto de a ler, mesmo com aquela mania maluca de começar as frases com letras minúsculas (raios), que às vezes me baralha a vista. Mas é feitio, mesmo. Nada a fazer. É a maneira de se vingar do Português dos “prazos” – ou então, a transposição gráfica da corrente contínua de ideias que é capaz de articular, tecendo, tecendo…
Orgulho-me de com ela ter assistido ao casamento do Príncipe William e da Kate Middleton! Foi bonito, pá, ir a acenar como as princesas depois, no carro, até à Faculdade. Foi ela que me pôs o nome de “Lady Kate”. Com ela descobri o Daniel Faria, aprendi a Agustina (continuo a achar que é mais fascinante dita pela Helena do que lida por mim), e muitos que não sei dizer. Gosto das noites em que andamos a pé, e ela pára em cada prédio e conta uma história. De ir ao Asa (ao Asa de Mosca), onde há aquele empregado triste com olhos lindos azuis, de porcelana. De quando deixa a chave no café. E de como deixa o carro no parque, quase sempre sem pagar. Gosto de a ouvir falar, falar, encadear assuntos, relacionar o que está ligado por relações directas, indirectas e espúrias que… “estás a perceber?”, pergunta de repente? E eu, mesmo quando não percebo, digo, “que giro… Chiça, de facto…”… Chiça, de facto.
Abriu-me a porta e deixou-me ficar. Uma e uma e uma outra e tantas vezes que nem sei contar. No meu quarto. Abriu outra vez a porta e mudou a minha Vida. E hoje regresso, eu no meu presépio, com o Francisco e a Maria na barriga. Nessa casa “onde a palavra se erguia como um candelabro”, como dizia o Herberto, fui e sou feliz.
“Morra quem se nega”, disse-me a Helena. E por isso – porque é ela quem o diz e essa é a sua Palavra – sei que viverá para Sempre.