sábado, 4 de julho de 2015

da Paula Rainha





Querida Helena,
Estou um pouco como a Joana, já não sei se penso e falo (bem) em Português mas neste teu aniversário tento e tento e tento. Bendito seja, porque tinha saudades. Escrevo sentada no jardim, com um calor bem Português a untar-me a pele e com a Maria Betânia a cantar « Formosa não faz assim » para toda a rua ouvir.
Ao ler o nome deste blogue, "Léna e os quarenta", recordei-me imediatamente deste livro, um dos meus preferidos de uma colecção à qual volto ocasionalmente, quando preciso de evadir o turbilhão do presente e voltar a sentir o tempo sem tempo da minha infância.
Esta colecção foi publicada entre 1977 e 1979 e comprava-se por correspondência. Pertencia aos meus primos mas eu gostava tanto ou mais dela que a minha tia acabou por ma oferecer. Ao escrever isto recordo-me também do Portugal no qual eu lia estes livros. Um país que já não existe, onde não se vêem tantas nespereiras e figueiras nos quintais, nem rebanhos nos terrenos vagos da cidade. Um Portugal onde se atiravam cestinhos da janela com as chaves de casa ou o dinheiro para o pão, onde ser apanhavam caracóis à beira da estrada e pinhas cheias nos pinhais. Onde se descascavam sacas e sacas de ervilhas, sem sequer acender a televisão porque, em qualquer caso, só dava a Tele-escola. Não tinhamos só pouco dinheiro como hoje, tinhamos poucas coisas e poucas lojas. E possivelmente não precisavamos da maioria.
Durante uma década não abri este livro porque o tinha encaixotado em Lisboa, a espera até que eu chegasse ao destino final e assentasse arraiais. Desde que aqui cheguei, tenho frequentemente e propositadamente parado e esbanjado tempo, também para reler livros como este e assim reviver os dias sem fim passados sobretudo com a minha avó, as primeiras leituras, o « Abre-te Sésamo » e o deslumbre com as ilustrações, olhadas detalhe por detalhe durante horas sem fim.
Por ter as minhas filhas estou talvez mais sensibilizada para a importância da infância em toda a nossa vida, mas acho que este retorno à infância se deve muito também ao facto de que começei a não ter tempo de fazer memórias – quando somos crianças lemos e voltamos a ler, olhamos e voltamos a olhar, pensamos e voltamos a pensar e eu estava a deixar de o fazer. Lia um livro e não o voltava a ler porque tinha uma pilha para ler, tirava fotos e não as via novamente porque tinha mais para tirar, o pensamento tinha sempre um objectivo. Tinha-me tornado uma pessoas (a)tarefada, e vivia consumida pelas tarefas. O meu marido e as minhas filhas forçaram-me a ir além do “eu não posso parar” e efectivamente parar. É materialmente assustador e é física e psicologicamente doloroso começar ou voltar a viver a uma outra velocidade, ficar para trás. Isto até se perceber que estavamos na corrida por acidente e que para alguns de nós, é essencial viver devagar,  à velocidade mais lenta de quem somos, e com isso ser o mais possível livre em toda a profundidade e humanidade dessa grande palavra que é liberdade.
Quando penso em ti penso numa pessoa (a)tarefada, que não vive à velocidade de quem é. Não o podes fazer, dirás tu. Talvez. Se te pudesse dar algo hoje seria isso, o tempo para ser quem és, livre. Não podendo, deixo-te o convite de pegares nos teus livros da infância e não a pilha que tens para ler e partires para longe, para um sitio onde só haja água, pão, fruta, mar, vento, sol e estrelas e música, sempre música.
É importante ter tempo para pensa rem coisas que aparentemente não interessam para nada. Vê bem esta história, por exemplo.
Há uns sete anos, conheci uma uma moçambicana. Nesse encontro ela contou-me que tinha sido uma « retornada » em Portugal e que no inicio dos anos 80 pôde voltar a Maputo de visita. Estava tão feliz de voltar a casa que foi directamente do aeroporto para a sua antiga rua. Quando chegou percebeu que já não vivia lá quase ninguém que ela conhecesse. Porém, aquele conjunto específico de [vizinhos/janelas com cortinas de um certo estilo/roupa estendida/bolas esquecidas no quintal/cão que ladra/carros estacionados/senhora da padaria] que ela tinha na memória já não existia. Não ficou sequer triste, foi-se embora, nunca mais pensou nisso e nunca mais voltou.
Tenho pensado muito nesta história ao longo dos anos mas ainda não consegui entendê-la em toda a sua profundidade. Acho, às vezes, que ela percebeu que era como se as pessoas estivessem vivas e continuassem a viver todas juntas, nos mesmos prédios e rua mas noutra dimensão. Cheguei mais perto de entender a história quando a minha avó faleceu. O esvaziar e vender da casa não significaram muito porque eram presente e este era completamente desfazado de mim, como se fosse uma experiência de alguém de outro. A minha avó não tinha, na verdade morrido para mim, continuava comigo a-problematicamente noutra dimensão, a dimensão viva do meu ser. É que as memórias da infância são um tempo e espaço vivos nos quais vivemos todos os dias da nossa vida.
Mas acho que há ângulos do episódio que ainda não explorei. E ainda não o cruzei com aquela outra história do neto da D. Micas que voltou aos 60 anos à rua para ver a casa da avó e que falou comigo, uma estranha sentada na esplanada ao lado, que o olhava sem perceber o que fazia naquele beco. Mas bom, talvez pense um pouco mais em tudo isto este Verão ou talvez escreva um livro com um igualmente bonito título « one day I will write about this place ».
Fecho com uma das minhas músicas preferidas que tocou há uns minutos atrás :

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem, selvagem
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão Jovens
Tão Jovens!


Conheces ?
Vem de viagem, fazer uma residência como está na moda fazer, tomar café e falar de tudo isto.
Entretanto querida Helena parabéns, faz o que for preciso fazer nesta nova década.
Helena e os quarenta, que não sejam quarenta ladrões do tempo.
Um beijo,

Paula







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