quarta-feira, 1 de julho de 2015

da Patrícia

1994, 2 de Novembro. Era Novembro só no calendário, porque era Verão para os que nos recebiam, já desabrochados, e Primavera para nós, que chegávamos, meio a medo, ávidos de saber e conhecer tudo o que eles já dominavam.

Atravessava a Porta Férrea na companhia de duas minhas semelhantes, novatas, caloiras… De entre o alarido que se fazia ouvir soou uma voz mais forte que as outras “Oh caloira!!”… 

Agigantei o passo na esperança de que um pretenso ar mais seguro não me denunciasse… lá cantou a mesma voz “É melhor vires agora, depois será sempre pior…”

Assim te conheci, dura, sem imaginar que estava prestes a ser colhida por um furacão.

Os dias passaram, os anos também, mas aquela frase nunca deixou de ecoar na minha cabeça “É melhor vires agora, depois será sempre pior…”

A certeza de que as coisas, mesmo as mais amargas, se temperam com mais facilidade se as enfrentarmos assim, agora, porque mais tarde será sempre pior.

Assim foi no primeiro chumbo, em que lascámos as pedras da Rua do Norte em direção à Sé Velha, numa correria desenfreada, eu a dizer que não voltava mais (à medida que ia lançando os livros de economia política guarda vestidos adentro) e tu a trovejares que não tinha outra hipótese que não fosse continuar (à medida que os fazia sair, guarda vestidos fora, num quarto empestado de inexperiência e desnorte…).

Assim foram todos os anos a seguir. Sempre te vi assim, na expressão do meu pai (que tanto gosta de ti) a agarrar o touro pelos cornos.

A coragem sempre onde é preciso, a tristeza diluída na letra de um poema ou na melodia de uma canção, mas sem nunca toldar o arrojo, a firmeza de quem não se demove perante o menos fácil, o menos agradável.

A casa sempre aberta, com o cheiro a livros e a notas de música… os dias quase sempre pintados a contas de Viana, que uma rapariga também se quer assim, a brilhar.

Abres o sorriso e tens sempre aquele ar fresco, de quem guarda os linhos na gaveta com sabonetes que se traziam de Espanha…

A lição é enorme. Confesso não conseguir pô-la em prática tantas vezes quanto gostaria.

Já dei por mim a tentar convencer o touro a doces, ou a troco de um copo de vinho, desfocando-o, mas “É melhor vires agora, depois será sempre pior…” não é coisa para qualquer um.

Lembro-me tantas vezes de ti principalmente nos meus achaques de autocomiseração, ou self pity (já dizem os Clã na canção “problema de expressão” “a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém…”). 

Ainda que por dentro te roa, doa e moa…

Assenta-te que nem uma luva:

“...E quando a vida te dói, canta, canta, canta, canta, ninguém precisa saber que tens um nó na garganta". (fugiu-se-me da memória a quem pertence…)

Venham, pelo menos, mais 40, Trigueira. Entre lágrimas, abraços e beijos havemos de voltar a festejar.

Patrícia

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