terça-feira, 30 de junho de 2015

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Desenhava em miúda, muito antes de conhecer a helena: uma casa com tartes a arrefecer à janela, frascos de doce e gatos de olhos de amêndoa que se deitam nos vasos de flores. Não sabia que era a casa dela que desenhava porque ainda não sabia dela, mas soube mais tarde ao entrar na casa dos pais dela, que ela era, com a casa: a família dos meus desenhos e desígnios de criança. A família calha-nos na rifa, boa ou má, não a escolhemos, os amigos, desses que esperamos como quem espera um grande amor, escolhemos e essa escolha não nos é imposta pelos laços de sangue mas pelos laços do coração. A helena é e era antes de a encontrar a minha irmã do coração, atamos num dia, nem sei qual, esses laços e apesar da distância, só lhe alargamos o nó, de resto é a casa dela que volto quando volto a Portugal como quem volta à sua casa, guio-me pelo laço que vai do meu coração ao dela. Sei que o coração da helena é um desses corações grandes e que não sou a única irmã de laços que ela traz ligado por esse mundo fora, mas ela é a única que eu tenho desse modo. 
Atravessamos mais de duas décadas, alegrias, lágrimas, horas de telefone, trocamos músicas e livros, trocamos cromos, trocamos os amuos pelos sorrisos e as tristezas pelas esperanças. 
E hoje que já ando pela casa dos quarenta só me ocorre contar-lhe um segredo que encontrei num livro cujo autor descobri na biblioteca do pai dela: «Não queiras saber tudo. Deixa um espaço livre para te saberes a ti.» 
diz-nos Vergílio Ferreira a paginas tantas! 

Um beijo que vai de Paris até ao Porto  

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